Não são os efeitos especiais nem as grandes estrelas que fazem de um filme um sucesso. E nem sempre "sucesso" é sinônimo de um bom filme. Existem estórias simples que, quando contadas da forma certa, nos cativam tanto - ou mais - quanto as grandes epopéias. Pelo contrário, também existem estórias que são concebidas e planejadas para serem épicas e que acabam naufragando fragorosamente, por que deixam de se preocupar com o básico. Aqui trago três bons exemplos disso. São filmes aos quais assisti durante a semana que passou e que me chamaram a atenção (tanto de forma negativa quando positiva).

O primeiro filme se passa na América dos anos 30, época na qual o crash da bolsa de valores de Nova Iorque acaba por deixar milhares de americanos na miséria absoluta. É neste cenário de desesperança que três figuras errantes vêem seus caminhos se cruzarem. Red Pollard (Tobey Maguire), um jóquei amador e profundo conhecedor de cavalos, Charles Howard (Jeff Bridges) um empresário dotado de extrema visão de futuro e Tom Smith (Chris Cooper em uma interpretação soberba) um adestrador de cavalos com um talento nato para se comunicar com os animais.
Apesar das muitas diferenças, todos os personagens carregam um traço que os une quase que subjetivamente, sem perceberem. Cada um deles é marcado por alguma perda significativa que os fêz desacreditarem de si próprios. Howard sofre com a morte prematura de seu filho e, como ele se culpa pelo acidente, esse sentimento nitidamente lhe corrói a olhos vistos. Red sofre por ter tido que deixar seus pais quando era jovem para poder seguir seu sonho, e, por isto, nutre dentro de si uma amargura tão intensa que só pode ser extravasada em forma de raiva. Tom, o adestrador sente-se perdido em meio a um mundo que cresce e muda a cada dia, forçando-o a cada vez mais se encolher em um mundo que ele se recusa a deixar para trás.
Três pessoas, três estórias que se juntam em torno de um objetivo comum chamado Seabiscuit. Seabiscuit era um cavalo pequeno, desajeitado e preguiçoso que teve toda sua vida relegada a um plano secundário. Era um animal que tinha sangue de campeão e alma de perdedor, fruto do tratamento derrotista ao qual fora submetido. No entanto, o talento inato do pequeno potro salta aos olhos do experiente Tom, que enxerga em seus olhos a vontade e a personalidade que muitos outros se negaram - ou não tiveram a capacidade - de compreender.
E assim, juntos, eles contróem uma trajetória de vitórias, erros e acertos, digna de quem resolve dar a si mesmo uma nova chance. No fundo todos eles enxergam um pouco de si no pequeno Seabiscuit e buscam, em sua vontade de vencer, a força que precisam para atingir a redenção. É uma bela história, tocante, emocionante, que consegue como poucas trazer uma mensagem direta ao coração de todos sem em nenhum momento tender para o lado da monotonia, da previsibilidade e da pieguice. É uma história real, de pessoas reais e que toca a cada um de uma maneira diferente.

O segundo filme se passa na Ruanda de 1994, mais precisamente quando a guerra entre as tribos rivais (hutus e tutsis) está prestes a eclodir. Desde que foi colonizada por colonos belgas, Ruanda foi sumariamente dividida em castas. Os tutsis foram por muitos anos minoria, mas controlavam o país, escravizando e torturando os irmãos hutus. Lógico que, depois de tantos anos de repressão um dia o jogo muda e os hutus resolvem se vingar, promovendo um banho de sangue que durou 100 dias e deixou mais de 1 milhão de mortos no episódio que ficou conhecido como o "
Genocídio de Ruanda".
Em meio a toda essa confusão está
Paul Rusesabagina (Don Cheadle) o gerente de um hotel requintado, o Mille Colline situado no coração de Kigali, frequentado em sua maioria por turistas ricos e pelas corruptas autoridades locais, as quais Paul suborna sistematicamente em troca de favores. Assim que o presidente Ruandês é assassinado, a revolução explode e o exército Hutu toma as ruas de Kigali. O povo, apavorado, acaba se refugiando no hotel (que por ser propriedade estrangeira, aparentemente é intocável) em busca de abrigo e aí começa o desespero e a epopéia de Paul.
De um lado, a sua familia, amigos e conterrâneos acossados pelos militares hutus sedentos de sangue tutsi. De outro, o exército da ONU enviado para tentar manter a paz mas com ordens de não intervir. Com o hotel lotado de pessoas apavoradas (tanto tutsis quanto hutus), Paul faz das tripas coração para tentar agradar os seus antigos "amigos" importantes, como o corrupto General Bizimungu, para garantir um pouco de segurança para aquela pobre gente.
O filme faz questão de mostrar bem claramente - e veementemente - o descaso do Ocidente em relação ao continente africano. Nenhum país enviou tropas para auxiliar aquelas pessoas. Quando os soldados canadenses e belgas chegaram, foram para retirar do hotel apenas os turistas brancos e europeus que lá estavam. Assim, os refugiados do hotel foram abandonados à sua própria sorte contando apenas com a coragem do pobre Paul.
Don Cheadle está impecável em seu papel. Ele consegue passar para o espectador todo o medo e o desespero que sente, principalmente quando o terrível sentimento de impotência o acomete. o filme mostra com uma crueza impressionante toda a estupidez de uma guerra inútil, motivada por anos e anos de um ódio racial incompreensível.
HOTEL RUANDA conta uma história chocante, triste mas real e muito bem articulada pelo diretor Terry George. Vale cada minuto.
E, para o final, vem o grande exemplo do qual falava : a idéia de grandiosidade que se perde em uma imensa estultice. "O MITO" (que deveria se chamar "O MICO") é uma produção chinesa estrelada pelo astro das artes marciais Jackie Chan. Na "estória", Jack é um arqueólogo que tem sonhos recorrentes com um passado distante o qual ele parece ter feito parte em uma vida passada.
A história confusa, as lutas sem sentido (porém bem coreografadas), os efeitos especiais tacanhos, as inúmeras cenas sem propósito fazem do longa um senhor pé-no-saco. A gente fica ali assistindo só de curioso para ver até onde aquilo vai chegar. É um samba-do-crioulo-doido que mistura "Indiana Jones", com "O Tigre e o Dragão" e ainda traz umas pitadas de Matrix. Milhões de dólares em uma idéia que até poderia ter dado certo se não fosse por essa salada de frutas indigesta que tira toda sua credibilidade.
Enfim, assista só se você gostar muito mesmo do Jackie Chan.
Fichas
Seabiscuit - Alma de herói
(Seabiscuit) EUA, 2003 Drama - 141 min
Direção: Gary Ross
Roteiro: Gary Ross, Laura Hillenbrand (livro)
Elenco: Jeff Bridges, Tobey Maguire, Chris Cooper,
Elizabeth Banks, Gary Stevens, William H. Macy,
Eddie Jones, Michael Angarano, Ken Magee
Hotel Ruanda
(Hotel Rwanda) EUA/Itália/África do Sul 2004 Drama - 121 min
Direção: Terry George
Roteiro: Keir Pearson e Terry George
Elenco: Don Cheadle, Desmond Dube, Hakeem Kae-Kazim,
Tony Kgoroge, Neil McCarthy, Nick Nolte, Fana Mokoena,
Sophie Okonedo, Lebo Mashile, Antonio David Lyons,
Leleti Khumalo, Kgomotso Seitshohlo, Lerato Mokgotho,
Mosa Kaiser, Mathabo Pieterson, Ofentse Modiselle,
David OHara, Joaquin Phoenix, Lennox Mathabathe,
Mothusi Magano, Jean Reno
O Mito
(San Wa) Hong Kong 2005 Ação - 108 min
Direção: Stanley Tong
Roteiro: (quem sabe ?)
Elenco: Jackie Chan, Hee-seon Kim,
Tony Leung Ka Fai, Raom Gopal Bajaj.